SÃO PAULO – A indústria de fundos “long&short” tem números pouco expressivos no mercado brasileiro, mas se seguirmos a tendência global, esse cenário tende a mudar drasticamente nos próximos anos – ou até meses. Com o ciclo de cortes da Selic chegando ao fim e as expectativas de inflações ancoradas por aqui, podemos ver no Brasil o mesmo fenômeno visto nos Estados Unidos de juros mantendo-se em níveis historicamente baixos por muito tempo. E a virada de mesa vem justamente na necessidade dos gestores multimercados em buscarem “alfa” fora da renda fixa.

De dois anos pra cá, boa parte dos gestores multimercados se aproveitou do ciclo de queda dos juros brasileiros de 14,25% ao ano para a mínima histórica de 6,5% ao ano (nesta quarta-feira, 16, a Selic pode cair para 6,25% a.a). Não que tivesse sido fácil “ganhar dinheiro, mas o fato é que gestores multimercados não precisavam quebrar a cabeça com a renda variável nesse período de afrouxamento monetário.

Agora, o Copom (Comitê de Política Monetária) deve encerrar os cortes na Selic e iniciar o ciclo de alta talvez apenas em 2019, em um ritmo bem mais lento do que a velocidade destas últimas quedas. Ou seja, podemos passar por um longo (e inédito) período de tranquilidade na política monetária. E é aí que pode ser o “pulo do gato” da estratégia L&S.

Dois dados que evidenciam o quanto esta indústria é inexpressiva no Brasil. Nos últimos 12 meses, a captação dos fundos multimercados brasileiros foi de R$ 895 bilhões, mas apenas 1% foi destinado à estratégia long&short. Nos Estados Unidos, os long&short captaram 35% dos US$ 3,5 trilhões no mesmo período. Uma das explicações para isso: a taxa de juros norte-americana vem operando próxima de 1% ao ano há quase 10 anos. Sem “novidades” na dinâmica de juros, é quase impossível extrair valor da renda fixa, então os gestores precisam buscar retorno em estratégias na renda variável.

Mas como exatamente funcionam os fundos Long&Short? A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) classifica como Long&Short os fundos que fazem operações no mercado de renda variável montando posições compradas (long) e vendidas (short). Você não precisa acertar as duas direções para ter lucro, o resultado será proveniente da diferença entre essas posições. Ou seja, sua posição “long” pode até cair, mas se ela cair menos que a posição “short”, você terá resultado positivo. Da mesma forma se o seu “short” subir menos que o seu “long”, terá lucro. O inverso é verdadeiro também: você perde com uma queda maior do seu long em relação ao short ou com uma alta maior do short sobre o long.

Adriano Leite, sócio da Moat Capital e responsável pelo relacionamento com investidores, explica que os fundos long&short se destacam entre os multimercados por terem uma gestão bem mais ativa em ações. Na prática, um fundo multimercados tem sua estratégia em Long&Short – quando ela existe – condicionada a outros investimentos. Ou seja, a exposição comprada e vendida em ações pode ser reduzida para atender outras demandas da gestão e ser redirecionada para renda fixa, por exemplo, ainda que seja um bom momento para Long&Short.

Já nos fundos focados em Long&Short, a estratégia comprada e vendida é explorada ao máximo, com o objetivo de potencializar os ganhos do cotista, e sem estar subordinada a outros tipos de investimentos. “Sendo bem direto, o fundo multimercado não pega 100% da classe [long&short], é só um pedaço, e não expressa 100% a liberdade do gestor de renda variável no fundo”, conta Leite.

Além do cenário de juros mais baixos, a volatilidade trazida pelas eleições também deve impulsionar a estratégia Long&Short. “O que ajuda um gestor de long&short não é necessariamente a tendência do mercado. O melhor cenário é ter um cardápio variado, que é o mercado que temos hoje em dia. A liquidez aumentou absurdamente nos últimos 18 meses, o que facilita entrar e sair dos papéis. Volatilidade muitas vezes gera oportunidade”, explica Leite.

André Lion, sócio-diretor e responsável pela estratégia long&short na Ibiuna Investimentos, também destaca a importância da liquidez para garantir os ganhos do fundo, principalmente para a montagem e zeragem das posições “short”. Tanto que a Ibiuna atua apenas com empresas com liquidez superior a R$ 5 milhões – para facilitar entrada e saída de posição, o que restringe seu campo de atuação a 115 companhias.

Ainda de olho na liquidez, o maior volume negociado na Bolsa brasileira proporciona um ambiente propício para Long&Short. O volume médio diário passou de R$ 1,2 bilhão em 2004 para R$ 8,7 bilhões em 2017 e R$ 11,4 bilhões neste ano.

Mais empresas significam mais oportunidades também. Depois de um longo e tenebroso inverno com um IPO por ano desde 2014, o número de novas empresas listadas na B3 foi de 10 no ano passado e a retomada da economia promete atrair mais companhias a partir deste ano, que já teve 9 IPOs em apenas quatro meses.

Como consequência da ampliação do mercado, os fundos Long&Short também renderam mais. Os Long&Short direcional tiveram retorno médio de 17,2% nos últimos 12 meses encerrados em abril, enquanto os fundos multimercados macro ganharam 12,5%. O fundo da Ibiuna long&short acumula alta de 21,5% nos últimos 12 meses e o da Moat avança 10,75% no período.