Gávea, Mauá, Ibiuna e Rio Bravo. Além de terem em comum a classificação de gestoras independentes, essas instituições são unidas por uma peculiaridade que as difere de outras casas: estampam nomes de ex-integrantes do Banco Central no comando. As intempéries políticas e econômicas parecem não abater o relativo otimismo do quarteto, que conta com a senioridade e a expertise de seus líderes para superar fases de instabilidade. Armínio Fraga, Luiz Fernando Figueiredo, a dupla Rodrigo Azevedo e Mario Torós, e Gustavo Franco, usam como apelo o argumento de que nenhuma tempestade dura para sempre. E é assim que conquistam o bolso dos investidores.

 

A presença desses figurões não garante acesso privilegiado a informações acerca das decisões do Banco Central, mas a larga experiência como presidentes ou diretores de política monetária faz com que os cenários por eles traçados considerem uma gama extra de variáveis.

 

Contra mistificações, Gustavo Franco, presidente do BC de 1997 a 1999, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, e um dos comandantes da Rio Bravo, acredita que sua vivência no setor público o ajudou a ter uma visão estratégica do sistema financeiro e a perceber transformações de longo prazo. “Mas não precisava necessariamente estar no BC para isso”, diz.

 

Franco lembra que a Rio Bravo quis evitar uma entrada no terreno especulativo de gestão de recursos de curto prazo. Para ele, essa é, inclusive, a parte mais polêmica quando se fala em ex-dirigentes do BC. “Existe um equívoco absoluto pensar que temos algum tipo de conhecimento superior sobre o andamento do mercado”.

 

Marcelo Lubliner, sócio-diretor e responsável pela relação com investidores da Mauá Investimentos, capitaneada pelo ex-diretor de política monetária Luiz Fernando Figueiredo (1999-2003), não ameniza a importância dessa figura na instituição.

 

As recordações desse passado na autarquia resultam em ganhos para os clientes, ainda que não se possa prever o futuro. Lubliner lembra que, recentemente, o mercado financeiro apostava em altas na taxa básica de juros que não foram concretizadas. “Nessas horas é ótimo ter alguém que pare e pense que a coisa não funciona bem assim. Isso tem muito valor na condução dos negócios”, afirma.

 

Armínio Fraga fundou a Gávea Investimentos, que tem sob gestão mais de R$ 16 bilhões, pouco depois de deixar o Banco Central, onde ocupou a presidência de 1999 até o fim de 2002. Fraga é reconhecido internacionalmente e isso acabou se refletido no modus operandi da casa, que tem entre 70% e 80% dos retornos vindos do exterior.

 

O ano de 2015 tem sido marcado pelo aumento das fichas apostadas nos fundos multimercados macro. A Ibiuna, de Rodrigo Azevedo e Mario Torós, começou com um fundo macro multimercado há cinco anos, que agora corresponde a R$ 2,3 bilhões dos R$ 2,9 bilhões geridos pela empresa. Os dois foram diretores de política monetária do BC, Azevedo de 2004 a 2007 e Torós, de 2007 a 2009, períodos tensos nos mercados.

 

“Como qualquer ativo no mundo, a gestão de recursos também tem o seu ciclo. Tem horas em que estamos performando mais, outros menos. Por isso é importante a robustez empresarial continuar. É uma maratona, não uma corrida de 100 metros”, diz Caio Santos, sócio responsável pela área de relacionamento com investidores da Ibiuna.

 

O atual carro-chefe das gestoras está entre as prioridades da Ibiuna e, segundo Caio Santos, é considerado fundo de baixa para média volatilidade, para buscar de 130% a 150% do CDI. Cenário similar é notado na Mauá, com cerca de R$ 1,8 bilhão sob gestão, dos quais R$ 800 milhões pertencentes ao fundo macro.

 

A estratégia é também observada na Gávea, de Fraga. Bernardo Carvalho, sócio e economista da gestora, reforça que as carteiras multimercados macro trazem uma maior flexibilidade. “Podemos nos beneficiar dos bons ativos que encontramos no Brasil e em todo o mundo”, diz.

 

A Rio Bravo atua em outra frente e tem apostado mais em ativos imobiliários, apesar das dificuldades enfrentadas pelo setor atualmente. “É um produto novo. Nos últimos dez anos, saiu praticamente do zero para algo como R$ 60 bilhões. Obtivemos uma vitória estratégica e sabemos que tem ainda mais por vir”, afirma Gustavo Franco.

 

A maior parte das gestoras dos ex-BCs privilegia o investidor local, com exceção da Gávea, que tem pouco mais de 50% de estrangeiros na base. “Mesmo com a atual situação do Brasil, estamos conseguindo navegar nesse ambiente global com a estratégia macro. Isso acalmou um pouco os investidores estrangeiros”, diz Carvalho.